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Parto normal no Canadá: Minha experiência em Vancouver

Parto normal no Canada.BC Womens Hospital.Minha experiencia.Viajadora

Após uma looonga gravidez (sobre a qual contei aqui), finalmente tive meu bebê em 24 de fevereiro no BC Women’s Hospital. Foi uma experiência marcante, que descrevo aqui para quem quiser saber mais sobre o parto normal no Canadá. Senta que lá vem história!

(Para as gestantes: não se assustem, o parto é intenso mas tudo vale a pena quando a gente ouve o primeiro chorinho do bebê! E essa história de que logo depois esquece como doeu é verdade, eu mesma já estou até pensando no segundo filho! haha)

O final da gravidez e o início do trabalho de parto     

Como contei no post sobre o terceiro trimestre da gravidez, quando eu estava completando 40 semanas minha médica perguntou se eu queria que ela fizesse o descolamento da membrana, um procedimento para induzir o parto sem medicação. Eu aceitei na quinta-feira de manhã e, de noite, senti uma dor intensa que percorreu a barriga e desceu pelas costas e pernas durante uns 50 segundos. Pouco mais de uma hora depois, veio a dor de novo. E alguns minutos depois, de novo e de novo. Foi quando me dei conta de que as contrações tinham começado, e seguiram durante toda a noite e no dia seguinte, aumentando e diminuindo a intensidade e os intervalos.

Como a ordem aqui é ir para o hospital apenas quando a bolsa estourar ou contrações de um minuto acontecerem com até cinco minutos de intervalo por uma hora, eu chorei monitorei os intervalos durante todo o dia e noite de sexta para sábado. Lá pelas 11h de sábado as contrações finalmente tinham se estabilizado em intervalos de cinco minutos por duas horas, então ligamos para o BC Women’s Hospital e nos orientaram a ir pra lá.

No hospital, o médico mediu minha dilatação e disse que eu só estava com 2 cm e, por isso, deveria voltar pra casa e esperar, só retornando quando os intervalos entre as contrações diminuíssem mais ou se a bolsa estourasse. E me deu morfina para aliviar um pouco as dores, o que só serviu para me deixar grogue por várias horas. Voltei xingando no carro, e assim que cheguei em casa e deitei para descansar, ouvi um “pop!” e levantei rápido: a bolsa tinha acabado de estourar!

Ligamos novamente para o hospital e me mandaram voltar, porque agora estava em trabalho de parto ativo. Nesse ponto eu mal conseguia falar, então Thiago explicou tudo na recepção e nos levaram para o mesmo quarto de triagem onde tinha sido examinada antes. Eu ainda estava grogue, então as duas próximas horas a partir desse ponto são nebulosas na minha memória, e só lembro de ter vomitado e da enfermeira indo lá de vez em quando ver como eu estava. Quando o médico mediu novamente a dilatação, eu estava com 4 cm e só conseguia pedir pela anestesia. Não senti dor quando levei a injeção nas costas, e em 20 minutos começou a fazer efeito.

Parto normal no Canadá: A minha experiência

Fui levada para a sala de parto logo após a anestesia. Lá, a Nicola se apresentou como a enfermeira que ficaria o tempo todo conosco até o nascimento do bebê. Ela era muito simpática, e a partir de então fiquei bem mais tranquila, porque já não estava mais com dor e foi ótimo saber que teria alguém com a gente cuidando para ficar tudo bem.

Deitei na cama, Thiago deitou no sofá ao lado, e a enfermeira prendeu em mim aparelhos para monitorar a frequência e intensidade das contrações e os batimentos cardíacos do bebê; e me deu um botão para apertar e liberar mais anestesia na minha veia se as contrações ainda estivessem doendo. Depois disso, me disse para relaxar, que agora era só esperar a dilatação chegar a 10 centímetros e o parto acontecer.

Lembro que fiquei tão relaxada e estava tão exausta que cochilei várias vezes, com a Nicola me checando de vez em quando. Umas duas horas se passaram desse jeito e corria tudo bem, até que, em um determinado momento, ela comentou que o equipamento não estava medindo os batimentos cardíacos do bebê direito. Nem achei que fosse nada, mas depois de tentar algumas vezes, tudo mudou: ela ficou bastante preocupada e ligou para chamar a equipe e fazer o parto imediatamente, porque os batimentos estavam caindo drasticamente.

E aí foi o caos. De repente o quarto ficou cheio, com enfermeiras, médicos, o chefe da obstetrícia e o chefe da pediatria. Eu, ainda meio grogue, e o Thiago, que estava quase dormindo, de repente precisamos acordar quando a médica nos avisou que eu estava com 9 cm de dilatação mas o parto precisaria ser feito imediatamente, porque o cordão umbilical estava enrolado no pescoço do bebê e o coração estava parando. Só lembro do desespero que senti vendo a cara de preocupação da equipe, ainda mais quando perguntei à médica se ficaria tudo bem e ela disse que “fariam o possível”.

Ficaram umas cinco pessoas em volta de mim, com a Nicola segurando uma perna e a médica de família segurando a outra.  Me mandaram tomar fôlego e empurrar quando mandassem. Fizeram isso umas cinco vezes, eu estava exausta e juntando todas as minhas forças pra empurrar, e tentando rezar pra dar tudo certo enquanto isso. Não doeu nada por causa da anestesia, mas eu fiquei tão cansada que só senti alívio quando ele saiu, às 23h06m de 24 de fevereiro de 2018.

Parto normal no Canada no BC Womens Hospital.Minha experiencia.Golden Hour com o bebe.Viajadora
Quando botaram meu filhinho recém-nascido todo gosmento nos meus braços. Nunca vou esquecer esse momento, muito amor!

Como foi um parto complicado, primeiro levaram o bebê para exame e reanimação em uma mesa próxima, e só depois o colocaram em cima de mim para a golden hour, quando os pais ficam uma hora sozinhos com o bebê logo após o nascimento. Não sou emotiva e nunca foi meu sonho ser mãe, mas não tenho palavras pra descrever a explosão de sentimentos quando vi meu filho pela primeira vez! Uma mistura de alegria, medo, amor, pânico, carinho, desespero, felicidade… tudo junto e misturado! Sem dúvida o momento mais incrível da minha vida.

Ao fim da golden hour, as enfermeiras voltaram para a sala para arrumar o bebê e me levar para o quarto. O chefe da obstetrícia nos explicou que, para o parto ser feito a tempo, eles precisaram usar o fórceps e o aspirador para tirar o neném, o que deixou a cabeça dele um pouco machucada, e fazer um corte de nível dois em mim (episiotomia), porque ainda não estava com a dilataçao total. E disse que em breve a gente não lembraria mais dele, mas que ele nunca ia esquecer aquele parto, porque foi um dos mais difíceis da carreira dele.

(Acho importante falar que, enquanto não são procedimentos comuns no Brasil, o uso do fórceps/aspirador e a episiotomia acontecem sempre que preciso no Canadá, onde o parto vaginal é prioridade e a cesariana, última opção. Todo relato de parto normal no Canadá que vejo conta como foi tudo lindo, humanizado e maravilhoso, mas acho importante contar também quando as coisas não saem como esperado, para ninguém ser pega de surpresa como eu fui. A parte boa é que, mesmo com todo esse perrengue do parto e a dor no corte nos primeiros dias, duas semanas depois eu já estava recuperada, sem dor nem cicatriz.)

 O pós-parto e a internação no BC Women’s Hospital

Não senti nada no parto por causa da anestesia, mas fiquei bem dolorida na semana seguinte. Os médicos me deram remédios para aliviar a dor e na mesma noite o bebezinho já ficou com a gente. O nosso quarto e o banheiro eram bem pequenos – o Thiago dormiu em um colchão no chão – mas foi ótimo ter um quarto só para nós.

A primeira noite com o bebê num berço ao meu lado foi surreal, e enfermeiras entravam toda hora para ver como estávamos. Só recebemos alta na terça-feira, porque ele teve um problema no nível de açúcar no sangue e, por isso, foi  levado no domingo para o CTI até estabilizar. Durante esses dois dias, tivemos total liberdade para visitá-lo quando quiséssemos, e a equipe médica sempre incentivava que o pegássemos no colo e passássemos o máximo de tempo juntos, porque o hospital tem essa filosofia.

Parto normal no Canada no BC Womens Hospital.Minha experiencia.Bebe no CTI.Viajadora
Nosso filhote com um dia de vida, recebendo cuidados intensivos para regular o nível de açúcar no sangue. Ele foi tratado com muito carinho pela equipe médica!
Parto normal no Canada no BC Womens Hospital.Visitando o bebe no CTI.Viajadora
A gente podia ficar quanto tempo quisesse com o bebê, mesmo durante o tempo em que ele ficou em outra área do hospital recebendo cuidados intensivos

Como meu leite demorou dois dias para descer, as enfermeiras me deram todas as orientações de massagem, bombeamento e tudo mais que eu precisava fazer para estimular a produção. Enquanto isso, pude escolher que meu bebê fosse alimentado com fórmula ou leite materno doado. No último dia da internação, a consultora de lactação do hospital foi no quarto me ensinar como amamentar, e ficou lá mais de uma hora conversando comigo e me ensinando como fazer o bebê pegar o peito e várias outras dicas que me ajudaram muito a amamentar sem problemas quando voltei pra casa. Também recebemos a visita da fisioterapeuta, que me orientou sobre exercícios importantes para o pós-parto, e do pediatra, que deu uma última olhada no bebê e nos deu alta.

Sou muito grata e só tenho elogios à equipe do BC Women’s Hospital pelo tempo que passamos lá: todos foram extremamente atenciosos, gentis e compreensivos conosco o tempo todo, muito carinhosos com nosso filho, e nos sentimos completamente acolhidos. Fico muito feliz de ter tido meu bebê lá, e acho incrível que esse serviço excelente seja todo público… como eu queria que fosse assim no Brasil também!

Parto normal no Canada. Nosso no BC Womens Hospital.Viajadora
Nosso quartinho no BC Women’s Hospital: pequeno, mas com tudo que precisávamos (Não reparem a bagunça, só lembrei de fotografar na hora de ir embora – detalhe para o pequenino já pronto esperando na cadeirinha, em cima do colchão onde o Thiago dormiu)

Com vocês, Eli!

Só decidimos o nome do bebê dois dias após o parto, porque é uma responsabilidade muito grande! haha Nesse meio tempo ele foi chamado de Baby Boy Freitas, como é de praxe com bebês sem nome definido na maternidade. No dia da alta finalmente concluímos que ele tinha cara de Eli, porque eu gosto de nomes curtinhos e cheios de vogais. haha Então, com vocês, nosso menininho Eli, nascido com 3,655 kg e 55 cm em uma entrada triunfal e dramática, digna do bom pisciano que é:

Parto normal no Canada no BC Womens Hospital.Meu bebe.Viajadora
Eli no dia em que completou duas semanas de vida
Parto normal no Canada no BC Womens Hospital.Meu bebe nascido de parto normal no canada.Viajadora
Nossa nova pequena família em casa! Só ficou faltando nossa cã Chica na foto
Parto normal no Canada no BC Womens Hospital.Meu bebe canadense.Viajadora
É clichê mas é verdade: quando o neném olha pra gente com essa carinha, a gente esquece a dor do parto e todos os incômodos da gravidez! <3

Minhas dicas para quem for ter filho no BC Women’s Hospital:

– Eles fornecem absorvente, calcinha descartável, toalha e camisola para a mãe, e fralda, lenço umedecido, mamadeira e o que mais o bebê precisar. Você só precisa mesmo levar sutiã, chinelo, escova de dente e a roupinha para o pequeno ir para casa (no hospital ele fica enrolado em uma toalha).

– A comida é bem decente (para um hospital), e a gente recebe um cardápio para escolher o café da manhã, almoço e jantar, mas sem lanche nos intervalos. Leve uns lanchinhos, porque a cafeteria e o Tim Hortons são distantes da maternidade e fecham cedo.

Parto normal no Canada.O cardapio do BC Womens Hospital.Viajadora
O cardápio que a gente recebe quando fica internada no BC Women’s Hospital. Você escolhe o que quer comer em cada refeição e pede pelo telefone do quarto. Achei bem legal esse sistema!

– Tenha sempre à mão o telefone do seu grupo de maternidade do hospital, para ligar se sentir algo estranho e quando entrar em trabalho de parto. Seu médico vai lhe passar.

– Peça a anestesian epidural!!! Melhor invenção do mundo, e os profissionais do BC Women’s Hospital são muito experientes e competentes.

No mais, boa sorte e fique tranquila que vai dar tudo certo!


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Engravidar no Canadá: O que consideramos para decidir
Pré-natal no Canadá: Primeiro trimestre da gravidez em Vancouver
Pré-natal no Canadá: Segundo trimestre da gravidez em Vancouver
Pré-natal no Canadá: Terceiro trimestre da gravidez em Vancouver
Três anos morando no Canadá: Nossa retrospectiva
Tem mais gente (e novidades) chegando no Viajadora!

Comentários

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7 comentários

  1. […] Parto normal no Canadá: Minha experiência em Vancouver […]

  2. Meu Deus que neném lindo!! Parabéns pelo filhote!! Adorei o relato.. como sempre muito detalhado!! Que aproveitem muito essa nova fase.

    1. Thaís Freitas

      Oi Flavia! Que bom que gostou do texto, fiquei com medo de estar longo demais porque eu falo muito hahaha Obrigada pelos votos e o elogio ao meu pequenino! Tudo de bom pra vc! Beijos

  3. Thaís, primeiro parabéns pelo seu bebê e obrigada pelo seu relato! Estava esperando ansiosamente, pois estou grávida e terei meu bebê no BC Women’s também. Desculpa te perguntar, mas o médico que você comentou ser o chefe do departamento e que te confidenciou ter sido um dos partos mais difíceis da vida dele, é por acaso o Dr. Michal Farmer? Porque eu me consultei com ele e queria saber o que você achou do atendimento como um todo no dia do seu parto…obrigada desde já! 🙂

    1. Thaís Freitas

      Oi Lise!

      Que bom que você vai ter seu bebê no BC Women’s, o hospital é maravilhoso!

      Sobre o nome do médico, desculpe mas eu realmente não posso te dar certeza… eu estava tão aloprada depois do parto que acabei esquecendo
      esses detalhes. Tentei ler no papel que me deram no momento da alta mas só tem o nome da minha médica de família, do pediatra e mais um garrancho impossível de entender. rs De qualquer forma, fica tranquila que a equipe toda lá é muito boa!

      Bom parto, que corra tudo bem e você e sua família sejam muito felizes!

      Bjs

  4. Eu nem sei como achei o blog, mas não posso deixar de dar parabéns por esse neném lindo! Ele é muito muito fofo. Nem posso imaginar o seu trabalho de parto, tive bebe aqui no Brasil há dois anos, tive contrações das 4 as 9 da manhã e quase morri de dor kkk vou ler os outros textos. Muita saúde pra vcs!

    1. Thaís Freitas

      Caraca, Cibele, nem eu posso imaginar também que já dói, foi um terror!! hahaha Mas também, agora com o Eli aqui parece que isso foi há tanto tempo, um passado bem distante… muito louco isso, né?!

      Tudo de bom pra vcs também!
      Bjs

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