Minha Quarentena no Canadá, British Columbia

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Acabei de ver que meu último post foi em Abril de 2019, anunciando a volta do Viajadora e contando como eu e Mari tínhamos passado os últimos meses. Plot twist: o blog não voltou! haha A vida ficou (ainda mais) corrida desde então; o site foi hackeado e deu um trabalhão pra consertar; eu tive outro filho (!) e, como todo mundo, fomos surpreendidas pela pandemia de Covid-19, que virou de vez a vida de cabeça pra baixo. Agora que arrumamos novamente o site e ajeitamos (pelo menos um pouco) nossas rotinas, decidimos “re-retomar” as postagens. Sem muitas expectativas, só animadas em falar sobre nosso dia-a-dia e coisas que nos interessam, a começar pela quarentena aqui no Canadá, sobre a qual recebi várias perguntas por email. Espero que você goste, e que a gente volte com tudo desta vez – quem viver, verá! haha

A quarentena e as medidas de isolamento social em British Columbia

Embora eu já viesse acompanhando as notícias do Covid-19 desde janeiro, não imaginei que a doença chegaria e se tornaria uma ameaça real no Canadá, até casos começarem a aparecer em fevereiro. Em março todo mundo estava falando disso e as empresas começaram a mandar os funcionários trabalharem de casa. Como eu estava na reta final da segunda gravidez e com problemas de saúde, saí de licença conforme o planejado e não cheguei a trabalhar de casa, mas o Thiago sim, assim como todos os nossos conhecidos não considerados trabalhadores essenciais.

Diferentemente de países mais atingidos, o Canadá não chegou a fazer lockdown nem proibir ninguém de sair na rua, mas várias medidas de contenção foram impostas:

  • Fechamento de atrações turísticas e comércio não essencial
  • Restaurantes abertos só para delivery e take-out
  • Alguns serviços foram proibidos de funcionar (salões de beleza, massagem, etc)
  • Fechamento das fronteiras para turismo e visitas não essenciais
  • Fechamento dos playgrounds e quadras esportivas
  • Tudo que era presencial se tornou virtual ou foi cancelado, como eventos públicos, aulas e consultas médicas
  • Modificações no transporte público para possibilitar o distanciamento

O ministério da saúde de BC passou a fazer pronunciamentos diários sobre a situação da pandemia e orientar medidas de precaução, como manter dois metros de distância das pessoas fora do seu círculo de convívio imediato, ficar em casa sempre que possível e lavar as mãos. Não houve nenhuma ordem de usar máscara e não sei se as algum indivíduo chegou de fato a ser multado por não respeitar as regras.

O governo espalhou placas sobre o isolamento social logo que a pandemia começou pedindo para cada um fazer a sua parte para evitar a doença
Quando a reabertura provincial começou, o governo colocou placas com informações sobre o que seria permitido na fase atual. Esta é da fase 1, agora estamos na 3

Nosso filho, Eli, passou a segunda semana de março em casa por causa do recesso de primavera e depois não voltou para a creche porque ficamos com medo de mandá-lo. O governo criou vários programas de apoio financeiro para as pessoas e empresas afetadas pela pandemia, inclusive um de apoio às creches para que pudessem manter a infra-estrutura sem cobrar mensalidades dos pais que não estavam mandando os filhos. Isso foi uma grande ajuda, e Eli acabou ficando em casa até o fim de maio e eu envelheci uns dez anos nesse período.

Nossa estratégia para sobreviver à quarentena no Canadá

Eu, que jamais cogitei ser dona de casa, de repente me vi obrigada a cuidar do Eli o tempo inteiro, fazer comida, arrumar a casa e manter tudo funcionando sem um minutinho para respirar nem lugar nenhum pra me esconder. Eli, com a energia que só uma criança de dois anos tem, sentia falta da creche e ficava entediado de ficar em casa; Thiago, estressado pela dificuldade de trabalhar e dar atenção ao filho ao mesmo tempo; e eu, grávida de nove meses, morta de cansaço, vomitando todo dia e com muita dor nas costas, nunca me senti tão cansada e desesperada por um minuto de sossego. O primeiro mês com nós todos em casa foi infernal e eu estava num estado de semi-pânico, vivendo dias intermináveis e sem a menor condição de dar conta de tudo.

O caos permanente que era nossa sala com Eli entediado em casa durante a quarentena

Felizmente o ser humano se adapta a tudo, e aos poucos nossa convivência foi ficando mais suportável. Criamos a rotina de acordar e ir de carro no drive-thru do Starbucks comprar café, o que nos ajudava a manter um aspecto de normalidade e era um passeio pro Eli, que anda obcecado por carros e caminhões. Quando Thiago acabava o trabalho, levávamos Eli e Chica para algum dos parques aqui perto de casa para correr, brincar e gastar a energia acumulada durante o dia. Era nossa hora de relaxar, curtir a natureza e o início da primavera – apesar de os playgrounds e quadras terem sido fechados no auge da pandemia, vários parques continuaram abertos e foram fundamentais para manter nossa
sanidade nesse período.

Fizemos pequenas trilhas até o último dia da minha gravidez, e Eli e Chica ficavam doidos esperando o passeio do final da tarde
Saíamos todos os dias, com sol ou chuva, já que Eli adora pular nas poças de água e mexer na terra quando chove.
A alegria de brincar do balanço no primeiro dia de reabertura dos playgrounds em New Westminster, no início de junho

A experiência de dar à luz durante a pandemia de Covid-19

Não tive de fazer as consultas do pré-natal online como em outros lugares, mas minha clínica parou de permitir a entrada de acompanhantes. Isso não fez diferença pra mim porque eu ia sozinha mesmo, e também não fiquei apavorada com a possibilidade de pegar a doença porque estava seguindo as medidas de proteção.

Em compensação, fiquei bem ansiosa com a perspectiva do parto e dos meses seguintes, porque meus pais vinham no final de abril nos ajudar mas o fechamento das fronteiras fez com que a viagem fosse cancelada. Além disso, não poderíamos contratar ninguém pra dar uma mão em casa; e fiquei triste e assustada com a perspectiva de passar pelo parto e internação hospitalar sozinha, já que o Thiago teria de ficar em casa com Eli. Felizmente, um casal de amigos brasileiros em Vancouver se ofereceu para cuidar do Eli durante meu período no hospital, e isso foi uma ajuda e tanto.

Não senti diferença nenhuma no Royal Columbia Hospital em termos de precauções por causa da covid: a maternidade fica em um andar diferente da emergência e nós não planejávamos mesmo receber visitas. Nosso bebê nasceu de parto normal e saudável, então só precisamos dormir uma noite lá e voltamos pra casa no dia seguinte.

No fim das contas, foi tudo mais fácil do que eu imaginava. A única questão que nos afetou mais foi o fato de nossa médica de família só estar fazendo consultas online desde que a pandemia começou, o que a impede de fazer os checkups do nosso bebê. Mas um dos médicos da clínica onde fiz o pré-natal está atendendo temporariamente os bebês nascidos com eles no período da pandemia, então não estamos tendo nenhuma dificuldade e, sinceramente, gosto mais dele do que da nossa médica.

Olha como ele saiu bonitinho! <3
Ter filho durante a pandemia foi bem menos assustador do que eu temia. Kyle nasceu de parto normal e na tarde seguinte já estávamos em casa

A abertura gradual da província e como as coisas estão agora

Há algumas semanas BC conseguiu achatar a curva de contágio da covid e, graças a todas as medidas do governo e à disciplina da população, o sistema público de saúde não ficou sobrecarregado como se temia. Com isso, a volta ao “novo normal” começou a acontecer em fases, com a reabertura das áreas públicas e de algumas atrações turísticas, reabertura do comércio não essencial e dos restaurantes para quem quiser comer lá, liberação de serviços como cabeleireiros e fisioterapeutas, e a volta de boa parte dos funcionários para os escritórios. Tudo isso, porém, com regras rígidas de isolamento social e diversas modificações, como exigência do uso de máscaras, lugares demarcados em filas, etc. O jiu-jitsu do Thiago, por exemplo, voltou mas cada aluno vai ter que usar um boneco para treinar fazendo distanciamento social até que a vacina seja lançada. As empresas e profissionais que não seguirem as regras estão sujeitas a punições, então todos estão seguindo direitinho para se adaptar aos novos tempos.

Atualmente a província está na fase 3 de reabertura, que inclui a reabertura das escolas, o incentivo a viagens curtas pela província e, em breve, a liberação da entrada de parentes de cidadãos e residentes permanentes no país – reza a lenda que meus pais chegam no final de agosto, não vejo a hora! O site oficial do governo de BC explica as fases e fornece as informações necessárias, assim como dados sobre a prevalência da doença.

Com o achatamento da curva, mandamos Eli de volta para a creche em 1º de junho. Eles estão tomando várias medidas para proteger as crianças, como, por exemplo, proibir a entrada de pessoas de fora (os pais agora deixam e buscam os filhos na porta) e distanciamento dos bercinhos para a hora da soneca.

Todo mundo sabe que é impossível fazer criancinhas entenderem distanciamento social, mas acho que o que estão fazendo é suficiente e estamos tranquilos. Eli ama a creche e ficou bem mais feliz depois que voltou a ir, e acho que isso vale o eventual risco de pegar a doença.

Thiago, por sua vez, continua trabalhando de casa e deve permanecer pelo menos até setembro. A empresa dele é daquelas onde todo mundo fica junto no mesmo ambiente, então vai precisar fazer várias adaptações para se adequar aos novos tempos. Eu bem que gostei, porque ele pode me ajudar mais com nosso recém-nascido e a casa e me fazer companhia, já que as atividades para bebês e os grupos de mãe ainda não retornaram presencialmente.

De uma forma geral, fiquei satisfeita com como os governos provincial e nacional estão lidando com a pandemia, e acho que a população se sentiu amparada e segura, apesar de que, claro, nada nunca será perfeito. Nossa vida já está bem parecida com antes, e é bom poder voltar a ir a lojas e encontrar amigos, agora dando muito mais valor às saídas e coisinhas do dia a dia que fazíamos sem perceber e das quais sentimos tanta falta quando ficamos sem durante a pandemia.

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