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Como viajar sem reservas nem perrengues

Viajadora: Como Viajar sem Reservas nem Perrengues

Sempre gostei de viajar sem reservas para ter liberdade de ser maluca mudar de ideia de uma hora pra outra. Mas, infelizmente, venho percebendo que o hábito crescente de se reservar tudo tem reduzido a possibilidade de viajar espontaneamente, porque quando se chega ao destino, as pessoas com mania de controle organizadas já reservaram quase tudo. Vi isso em agosto, em Buenos Aires , e no último fim de semana, quando fui para Trindade no feriado de 12/10, que caiu no sábado e teve tempo ruim, mas mesmo assim lotou as pousadas mais legais.

Obviamente, o acesso a informações sobre hotéis e passeios na internet facilita definir todo o roteiro já de casa. No geral, as pessoas gostam de conforto e temem o desconhecido, por isso, cada vez mais, vêm reservando tudo, reduzindo a quantidade de vagas disponíveis e fazendo com que viajantes espontâneos se sintam pressionados a reservar também para evitar problemas. É claro que quem é adepto vai apontar as vantagens dessa prática, mas eu me recuso a aderir e vou mostrar aqui o porquê de ainda ser muito melhor viajar confiando no acaso.

Comecemos contestando essas tais vantagens do planejamento:

1)   Não ficar desabrigado ao chegar no destino

Ter de dormir ao relento numa cidade nova é um dos medos mais comuns de boa parte dos viajantes brasileiros. No entanto, sabemos que os hotéis quase nunca ficam 100% lotados. Sempre vai ter alguma vaga, e possivelmente com desconto, já que a maioria dos lugares oferecem vantagens para hóspedes de última hora.

Além do mais, fazer reservas não necessariamente garante que você tenha um lugar para ficar quando chegar, e os imprevistos estão aí para comprovar isso. Em abril fui para o Havaí com uma amiga e, por insistência dela, reservamos duas camas no Honu´ea International Hostel, em Kauai, porque lemos que lá havia poucas opções de albergues e os hotéis eram caros, então não quisemos arriscar. Só que o voo atrasou e chegamos às 23h. O que aconteceu? A recepção estava fechada e não havia uma alma nas imediações. Depois de muito batermos na porta, um funcionário apareceu e, diante das nossas súplicas, se recusou a nos receber, porque o horário de check in era até 21h. Perdemos os 50 dólares da reserva e acabamos encontrando vaga em um hotel bem gostosinho na beira da praia, por um valor só um pouco maior do que pagaríamos para dividir um quarto com seis pessoas e sem café da manhã naquele albergue lazarento.

Quer reservar um lugar seguro e organizado pra ficar no Havaí? Então passa bem longe daqui! (foto do TripAdvisor)
Quer reservar um lugar seguro e organizado pra ficar no Havaí? Então passa bem longe daqui! (foto do TripAdvisor)

2)   Fazer reservas é bem mais econômico

Isso pode até ser verdade em alguns casos, como esse que comentei aqui, mas hoje, com o auxílio da tecnologia, viajar de improviso ficou mais fácil e muitas vezes mais barato, já que existem muitos sites e aplicativos para conseguir vagas de última hora em lugares legais e com bom preço. Um ótimo exemplo e que uso sempre é o site Last Minute, que ajuda a encontrar quartos em vários lugares do mundo com ótimos descontos. A partir dele, é bem provável que você se hospede melhor do que conseguiria reservando com antecedência, e ainda por cima pagando menos pelos preços promocionais de última hora, já que nenhum hotel quer ficar com quartos vazios.

Pra mim nada é pior do que chegar num lugar com uma reserva e ver que poderia ter ficado em outro muito melhor pagando menos se tivesse deixado para ver na hora. Isso aconteceu nas poucas vezes em que reservei alguma coisa. O réveillon de 2011, por exemplo, passei em Koh Phangan, a ilha da Tailândia que é famosa pela Full Moon Party. Como essa é uma das principais atrações do país, reservamos camas no Dancing Elephant Hostel e dividimos um quarto com 25 pessoas. A experiência foi ótima e super divertida, mas quando estávamos lá, vimos que hoteizinhos com bangalôs na praia de Haad Rim tinham vagas e estavam cobrando a mesma coisa que pagamos para ficar num dos albergues mais superpopulados da ilha.

3)   Não perder tempo procurando onde ficar

De fato, ficar pra lá e pra cá atrás de pouso é um saco mesmo, mas faz parte. É possível amenizar isso vendo direitinho onde procurar. Eu faço uma lista com os nomes e endereços de uma meia dúzia de albergues/hotéis onde queira ficar e vou para o primeiro da lista. Se der para ficar lá, beleza, se não der, sigo para o próximo. Quase sempre dá certo. Quando não dá, geralmente os hotéis ficam todos numa mesma região, então não é muito difícil ir de um pro outro. E com a ajuda do Last Minute e sites afins, isso nem é mesmo preciso, porque já dá pra ver logo onde tem vaga ou não.

4)   Ficar em um lugar aprovado por outros viajantes

Sites como o Tripadvisor e o Booking são exemplos dos muitos que oferecem reviews dos usuários sobre hotéis e atrações turísticas, que podem parecer uma garantia da qualidade do lugar que se está reservando. Só que opiniões são muito subjetivas e dependem das circunstâncias, então o que é bom para você não necessariamente vai ser legal pra mim. Além disso, muitos dos reviews são antigos, e o hotel que há dois anos era o máximo, pode ter mudado de administração e estar caindo aos pedaços hoje. E sem falar que problemas como falta de água, obras na vizinhança e chuveiro queimado acontecem, e podem fazer com que aquele hotel tão bem classificado não seja tão bom assim.

Pra ilustrar isso, mais um exemplo de desgraça das minhas viagens. rs Fui passar o réveillon 2012 em Morro de São Paulo, Bahia, com três amigas. Reservamos um quarto quádruplo no albergue Che Lagarto, aquela rede famosa no mundo inteiro. Se você olhar em qualquer site, as avaliações de lá são ótimas. Mas nos botaram num muquifo onde só cabiam duas beliches, com uma janela que dava pro pátio onde um dj tocava música muito alta o tempo inteiro. Gostávamos de tirar um cochilo de tarde pra poder sair à noite, mas a temperatura do quarto ficava uns 50°C, não dava pra abrir a janela e eles só deixavam o ar condicionado funcionar depois das 8 da noite. No quinto dia dos sete que ficamos lá, a privada do banheiro entupiu e eles não consertaram, só mandaram usar o banheiro do pátio. E para completar, nos dois últimos dias faltou água no andar de baixo e tivemos de tomar banho no banheiro de um quarto vago no segundo andar. Legalzão, né? Adiantou alguma coisa ler as críticas nos sites? No fim das contas, o que vale mesmo é a sorte.

Tão bonitinhas! Nem parecem que estavam dividindo um cortiço com privada entupida e tomando banho de favor no quarto do vizinho do albergue. Em Morro de São Paulo, BH
Tão bonitinhas! Nem parecia que estávamos dividindo um cortiço com privada entupida e tomando banho de favor no quarto do vizinho do albergue. Em Morro de São Paulo, Bahia

Agora, as desvantagens óbvias de se reservar coisas com antecedência:

1)    Não dá pra mudar os planos

Imagine: você está fazendo um mochilão e, no albergue, conhece um pessoal muito legal que te conta de uma festa imperdível em algum lugar, eles estão indo pra lá e te chamam pra ir junto. Você queria muito, mas não pode, porque já está com seu albergue reservado (e pago) para as próximas três noites em uma cidade, mais três noites em outra, mais quatro noutra e depois tem que voltar pra casa. De que forma isso pode ser bom, minha gente?

2)    Não dá pra ir embora se der vontade

Trindade no feriado estava tão ruim, mas tão ruim, que resolvemos voltar no domingo em vez de ficar até segunda-feira conforme o planejado. Se tivéssemos pagado com antecedência, ou teríamos perdido o dinheiro ou ficaríamos lá só porque já estava pago. Também não consigo entender como ficar preso assim pode ser bom.

Além disso, e se quando você chegar lá, perceber que o lugar onde seu hotel está não é tão legal assim e você queria mesmo era ter ficado em outro bairro? Ou se o seu albergue for tão ruim quanto o nosso em Morro de São Paulo e você não puder mudar porque já pagou? Deus me livre!

3)    Imprevistos acontecem

E se você tivesse reservado seus hotéis no sudeste da Ásia justo para o período depois do grande tsunami de 2006? Ou depois dos atentados de 11 de setembro em Nova York? Você teria perdido dinheiro, e teria de gastar bem mais pra viajar para outro lugar e fazer tudo isso de novo. É claro que esses exemplos são muito radicais, mas problemas e imprevistos acontecem, e quanto mais livre a gente for, menos vai sofrer com eles e mais fácil vai ser mudar os planos.

Pronto, agora que já está tudo explicado, vamos, finalmente, às

Dicas de como viajar sem reservas e sem passar perrengue:

  • Antes de tudo, tenha senso de humor: Problemas acontecem, sempre vão acontecer, e se você não tem leveza para lidar com imprevistos, viajar sem reservas não é pra você. É melhor ficar em casa vendo filme no Netflix.
  • Não seja fresco: Essa é complementar ao senso de humor. Quase sempre você vai encontrar um bom lugar para dormir em cima da hora, mas é possível, também, que em alguma ocasião não encontre. E aí vai ter que aceitar passar a noite em um lugar ruinzinho, dormir em motel ou coisas do tipo. Não é o ideal, mas vale a pena pela liberdade de ir e vir.
  • Se familiarize com os sites e aplicativos que ajudam a achar quartos em cima da hora: O site Last Minute é o mais útil, mas aplicativos como o Expedia (também oferece opções de hotel last minute), Hipmunk (além de vagas de última hora, também tem opções alternativas de hospedagem, como os imóveis para aluguel do site Airbnb), Hostelword (para achar hostels) e o iCampsites (para achar vagas em campings nos EUA e Europa) também são ótimos.
  • Selecione os hoteis/albergues onde procurar vagas primeiro: A gente improvisa mas não quer ficar andando à toa, então, como falei, tenha em mente alguns lugares aonde ir primeiro.
  • Faça contato com pessoas do local aonde está indo: Independente de lugar pra ficar, eu adoro pegar amizade pela internet com moradores. É a melhor forma de saber informações legais que nenhum guia de viagem te dá, e esses novos amigos ainda podem te ajudar em caso de algum problema. Há muitos anos uso o Interpals, e todo mundo lá é muito simpático e solícito para ajudar.
  • Tenha um plano B. Saiba o que fazer caso tudo dê errado. Você pode levar consigo uma barraca de camping se estiver de carro e um saco de dormir (útil em qualquer situação), pode ter um perfil no Couchsurfing para achar lugar na casa de moradores do local (excelente opção!), ter um dinheirinho reserva pra se precisar ficar num lugar mais caro ou até ver dicas bem interessantes para dormir em aeroportos no site Sleeping in Airports (adoro!) . O importante é ter um plano B.

Seguindo essas dicas e tendo em mente que, no fim das contas, tudo dá certo, é garantido ter uma viagem tranquila e com muito mais liberdade.

freebitch

E você, prefere viajar com ou sem reservas? Tem  mais alguma dica de como viajar no improviso sem sofrer? Conta pra gente!

Comentários

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6 comentários

  1. […] Conforme comentei aqui, vi lá na hora que alguns bangalôs na praia ainda tinham vagas bem mais baratas para quem […]

  2. […] Viajar sem reservas é bem mais emocionante. No fim das contas, sempre vai ser possível encontrar um teto pra […]

  3. […] > Como chegamos de última hora, acabamos ganhando um belo desconto no melhor quarto deles, que saiu mais barato que um quarto normal do hotel. Viajar sem reservar nada pode ser cansativo, mas certamente tem suas vantagens. Veja dicas para fazer isso sem perrengue aqui. […]

  4. […] muito do post sobre Como viajar sem reservas nem perrengues, porque é algo de que sempre falo e incentivo meus amigos a experimentarem, e achei que o post […]

  5. […] Reserve o que for preciso reservarEu sou a primeira a falar que acho bem melhor viajar sem reservas para ter mais liberdade, mas entendo que em alguns casos isso pode gerar muito estresse e […]

  6. […] na Chapada Diamantina são as trilhas e cachoeiras, a correria valeu a pena. E embora eu defenda viagens espontâneas, sem reservas nem roteiros rígidos, este roteiro é uma exceção, já que a ideia era otimizar o tempo ao […]

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