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Remando nas cavernas de gelo de Valdez, Alasca

Viajadora: Remando nas cavernas de gelo de Valdez, Alasca

Mesmo visitando o Alasca no verão, o que eu mais queria era ver as cavernas de gelo e os glaciais, afinal, vi tantas fotos e li tanto sobre isso, que não tinha como não visitar. A melhor opção seria ir para Juneau, a capital do estado, onde fica o glaciar Mendenhall e as cavernas mais famosas. Mas tínhamos pouco tempo, então acabamos resolvendo ir para Valdez, uma cidadezinha à beira-mar cercada de montanhas e glaciais e famosa pelas possibilidades de passeios e esportes ao ar livre.

Chegamos lá após quase nove horas de carro desde Fairbanks, subindo e descendo montanhas enormes, em uma estrada deserta no meio de florestas de pinheiros e muitos lagos, lindíssima. Não é à toa que dizem que essa é uma das estradas mais bonitas do Alasca, que fica ainda mais linda um pouco antes de chegar à cidade, com a visão marcante dos glaciais  esparramados entre as montanhas.

Os glaciais impressionam logo na chegada a Valdez
Os glaciais impressionam logo na chegada a Valdez

Não demos muita sorte com o tempo, que estava muito chuvoso e bem frio quando chegamos em Valdez e só piorou enquanto estivemos lá. Era o início da tarde de 3 de julho, véspera do dia da Independência, feriado em que a maioria dos americanos viaja e alta temporada, mas mesmo assim os hotéis estavam vazios e foi fácil arrumar um quarto numa tranqueira qualquer. Por ser uma cidade pequena, com menos de 4.000 habitantes, não faz muita diferença o local onde se hospede, já que dá pra ir andando para todos os lugares.

Logo que cheguei, achei que fosse amar Valdez, que me parecia uma típica cidadezinha americana que a gente vê em filme. Achei que ia ter lugares legais pra comer e beber um vinho apreciando o clima interiorano, aquela coisa toda. Só que não parava de chover e estava um frio desgraçado, não se via uma alma na rua, todos os restaurantes que adentramos só tinham opções de pizza e frituras e os bares eram escuros e frequentados por homens fumando, jogando sinuca e mascando tabaco, bem deprimentes. Foi assim que, mesmo encantada com os coelhos vira-latas correndo por todos os lugares como cachorros, meu amor à primeira vista pela cidade passou rápido  e decidimos fazer logo o passeio das cavernas de gelo no dia seguinte, ver os festejos de 4  de julho e ir embora na manhã seguinte.

Mas a liberdade de ir e vir que viajar sem reservas traz às vezes cobra seu preço, e dessa vez não conseguimos vaga em nenhum dos passeios matutinos de caiaque pelos glaciais. Os atendentes das agências que oferecem esse serviço disseram que deveríamos ter reservado com dois dias de antecedência, pois a cidade estava cheia – apesar de não fazermos ideia de onde todas essas pessoas estavam se escondendo. Deixamos nosso nome lá e marcamos de voltar no dia seguinte pra ver se alguém tinha desistido, mas logo que retornamos ao hotel, tiramos todas as camadas de roupas e agarramos uma garrafa de vinho para afogar as mágoas, a garota da agência Anadyr Adventures ligou e disse que um casal do passeio da tarde tinha desistido e era a nossa chance. Uhul, nos arrumamos de novo e lá fomos nós sob a chuva fina congelante para fazer o tal passeio.

Na agência, havia mais seis pessoas. Mary, a guia, nos deu roupas e botas à prova d´água e em seguida nos levou numa van até Old Valdez, o lugar a uns poucos quilômetros de distância onde a cidade ficava até o grande terremoto de 1964, quando teve de ser reconstruída onde está agora. O dia estava cinzento e carregado, com uma neblina tão forte que mal dava para enxergar as montanhas. Paramos à beira do lago glaciar, descarregamos os caiaques e equipamentos e ela nos explicou os procedimentos de remo e segurança antes de entrarmos na água. Disse que nesse tipo de lago, formado pelo derretimento das geleiras, não existe qualquer vida animal, por causa da composição química e dos detritos, o que me deu uma sensação estranha de estar navegando num lugar morto e deixou tudo ainda mais sombrio.

Na hora de embarcar, deu um medo danado de cair nesse lago gelado
Na hora de embarcar, deu um medo danado de cair nesse lago gelado
remando nas cavernas de gelo de Valez
Olha a gente aí remando!

Dividi um caiaque duplo com Sam e começamos a remar. Como não tem onda nem correnteza, é bem fácil para pessoas de qualquer idade e condição física. Fomos nas cavernas de gelo, passeamos pelo lago todo e, depois de um tempo que me pareceu infinito por causa da minha vontade desesperada de fazer xixi, fomos até um lugar em que paramos os caiaques para caminhar sobre o glaciar. Nesse momento minha mão sem luvas estava semi-congelada, chuviscava fininho e o frio já tinha chegado até os ossos. O glaciar é um bloco gigante de gelo e rocha. Subi pra uma área distante para me aliviar e foi um terror… experimente fazer xixi agachada no gelo, vestindo 58 camadas de roupas, sem sentir as mãos e com uma chuva fina caindo na sua bunda… inesquecível.

O glaciar é uma mistura de gelo e rocha, em mutação constante
O glaciar é uma mistura de gelo e rocha, em mutação constante

Mary nos serviu café, leite quente, biscoitos e chocolates que tinha trazido, depois caminhamos por cerca de uma hora pelo glaciar. Um passeio muito interessante numa paisagem tétrica e totalmente cinza, mas com aberturas profundas extremamente azuis e um barulho de água corrente que nos lembrava que, de fato, estávamos andando sobre uma superfície em mutação constante, derretendo e se congelando novamente há milhões de anos.

Ao voltamos para a margem de onde iniciamos a remada, guardamos o material todo e voltamos para a agência. De lá fomos ver a queima de fogos de 4 de julho no píer da cidade. O orgulho americano rolando, fizeram uma fogueira enorme e estavam distribuindo marshmallows pro pessoal assar. Debaixo de chuva e frio, a queima de fogos foi tão, mas tão tristinha, que deu até dó. Ficamos lá por alguns minutos e fomos jantar, e no dia seguinte fomos embora, um tanto aliviados.

Mais fotos?

Remar dentro das cavernas de gelo é simplesmente sensacional, são tantos tons de azul!
Remar dentro das cavernas de gelo é simplesmente sensacional, são tantos tons de azul!
cavernas de gelo prestes a demoronar de Valdez no Alasca
Algumas cavernas podem despencar a qualquer momento, e o barulho de água corrente é permanente

remando pelas cavernas de gelo de Valdez no Alasca

cavernas de gelo de Valdez no Alasca
Paisagem tétrica
Caminhando pelos glaciais de Valdez, Alasca
Mas que lugar agradável para uma caminhada!

A conclusão:

Eu não fui com a cara de Valdez. Não gostei da cidade, achei tudo caro e com poucas opções de onde comer comida boa e beber sem desenvolver um aneurisma pulmonar por causa de tanta fumaça de cigarro, e isso é um troço que realmente me incomoda. O tempo também não ajudou. Mas o passeio de caiaque valeu muito a pena, e eu com certeza recomendo a quem tiver interesse em conhecer os glaciais e cavernas de gelo, deslumbrantes. Além desse tour, existem opções de pesca embarcada, trekking, passeios de observação de vida selvagem e vários outros. Mas fique atento às condições climáticas: com o tempo que pegamos no dia, não teria sido possível fazer o passeio de vida selvagem, por exemplo, e o mar estava ruim para pesca, como nos disseram.

Quem te leva para fazer os passeios:

Anadyr Adventures – a agência que usamos, muito boa!

Endereço: 225 North Harbor Drive, Valdez (na rua do porto, é quase tudo lá)

Telefone: +1 907-835-2814

Oferece passeios de caiaque e observação da vida selvagem.

Pangaea Adventures

Endereço: 107 North Harbor Drive

Telefone: +1 907-835-8442

Oferece tours guiados e aluguel de caiaques, taxi aquático, escalada em gelo e excursões de  trekking nos glaciais ou em terra.

Lu-Lu Belle

Endereço: 240 Kobuk Drive, Valdez

Telefone: +1 907-835-5141

Passeios de barco para observação da paisagem e da vida marinha.

Stan Stephens Glacier & Wildlife Cruises

Endereço: 112 North Harbor Drive, Valdez

Passeios de navio pelos glaciais, com foco na observação da vida marinha (focas, baleias, leões marinhos e outros)

– Vale lembrar que essas quatro agências só funcionam e oferecem esses passeios marítimos no verão, entre junho e agosto. No inverno, o pessoal vai pra lá pra praticar ski e snowboard e fazer passeios de helicóptero e snowmobile, tem bastante informação disponível na internet sobre isso, pergunte pro Google ou veja em www.valdezalaska.org .

Outras coisas pra fazer em Valdez além dos passeios de caiaque e outros tours de natureza oferecidos pelas agências:

Ir embora para outra cidade. Lá tem dois museus de arte e história local, mas são chatos e o Alasca oferece muita coisa legal pra você perder tempo com isso.

Onde ficar:

O ideal é escolher um hotel ou bed & breakfast no centro ou no porto, para ficar mais fácil de fazer tudo a pé. Não tenho nenhum específico pra indicar, se lembrasse o nome do que fiquei, diria pra ninguém ficar lá, porque parecia uma versão do Bates Motel, de Psicose, frequentado por viciados e caçadores de ursos daqueles que ficam sentados mascando um matinho na beira da estrada e prontos pra matar você e toda a sua família se pararem para pedir uma informação. Foi relativamente barato, mas de qualquer forma, é bom evitar ficar em um lugar muito podrão, porque não tem muito pra fazer na cidade e por isso um quarto de hotel confortável é algo importante (gente, nunca me imaginei dizendo isso, estou ficando velha mesmo).


-> Confira aqui as opções de hospedagem em Valdez disponíveis no Booking.com.


Dicas:

  • Decida os passeios que quer fazer e reserve com uns dois ou três dias de antecedência, porque os grupos são pequenos e as vagas esgotam logo.
  • Use meias de lã e várias camadas de roupas quentinhas para fazer o passeio de caiaque. E leve luvas, senti muita falta delas! Se tiver suas próprias roupas impermeáveis, leve, mas se não tiver, não se preocupe, porque eles oferecem tudo, até botas.
  • Leve água e um lanchinho pra comer com o café que as agências oferecem, não conte só com a comida deles. Eu gosto especialmente de levar sanduíche de pasta de amendoim com geleia, que são gostosos e bem energéticos.

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4 comentários

  1. […] do Atacama; voltar a sentir o sangue fluir nos dedos ao segurar um café bem quente depois de remar entre os glaciais do Alasca; sentir o alívio no cansaço ao tomar chá de coca no alto do monte boliviano Chacaltaya; […]

  2. […] Remando nas cavernas de gelo de Valdez, Alasca […]

  3. […] que em alguns casos isso pode gerar muito estresse e imprevistos desagradáveis. Quando eu fui remar nas cavernas de gelo do Alasca, por exemplo, só consegui lugar num tour porque duas pessoas tinham desistido, e isso poderia ter […]

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