Amigos por correspondência (ou como viajar quando não dá para viajar)

Amigos por correspondência (ou como viajar quando não dá para viajar)

Como minha mãe sempre fala, desde pequena eu tenho esse fogo no rabo desejo de viajar, conhecer lugares novos e gente diferente. O problema é que quando a gente não tem dinheiro ou chance de fazer isso, acaba ficando frustrada com essa vontade reprimida. Era como eu me sentia com uns 13 anos, quando não ganhava meu próprio dinheiro e nem podia ir a qualquer lugar que eu quisesse. Por mais que já tivesse internet e a possibilidade de ler sobre viagens e falar com gente do mundo todo em chats, nada disso era suficiente para acalmar o meu “bichinho da viagem”.

O que eu queria era fazer o que mais gosto hoje em dia quando viajo: sentir o cheiro dos lugares, provar as comidas, observar o dia a dia das pessoas e conhecer um pouco de como elas vivem e pensam. E achava impossível fazer isso sem ser viajando, até que um dia uma professora de inglês sugeriu que arrumássemos amigos por correspondência para melhorarmos nosso domínio da língua e sabermos como outras pessoas da nossa idade viviam em outros países. Os anos 2000 estavam para começar, quase todo mundo já tinha e-mail e eu nem imaginava que alguém ainda mandava cartas pelo correio, mas eu e a Mari gostamos da ideia e resolvemos experimentar.

Amigos por correspondência: descobrindo o mundo dos pen pals

Pesquisando por pen pals (o termo em inglês para amigos por correspondência) na internet, acabamos achando muitos sites de gente que ainda praticava a troca de cartas via snail mail (ou “correio lesma”, na tradução ao pé da letra em português). Nesses sites, era possível fazer um perfil se apresentando, contando do que gostava, indicando de que tipo de assuntos queria falar, de que lugares e idades gostaria que seus pen pals fossem e se queria trocar coisas (cartões postais, CDs, moedas e o que mais a imaginação permitisse). Você escolhia visualizar os perfis por faixa etária, e tinha desde crianças muito pequenas cujas mães escreviam as cartas até aposentados que queriam se distrair.

Fizemos nosso perfil, escolhemos umas pessoas, enviamos nossas primeiras cartas e depois esquecemos completamente. Até que, dois meses depois, um envelope muito colorido e cheio de adesivos chegou da Polônia para mim. Era a Ania, minha primeira pen pal respondendo a minha carta, contando sobre a vida, suas músicas e filmes favoritos e como eram as coisas na escola. Depois da carta dela, chegaram outras e outras, e quando eu percebi, estava me correspondendo com 20 pessoas do mundo todo. Eu recebia tanta carta que o carteiro já me conhecia, porque eu ficava na porta do prédio esperando ele passar. haha

Às vezes eu recebia cinco, seis cartas de uma vez só, e era uma emoção danada ter em uma mesma leva envelopes da Índia, da Rússia, dos EUA, da Alemanha, da Tailândia… Cada carta tinha um cheiro específico e uma cara diferente, dava para ver direitinho como a pessoa era e como eram as coisas no país dela. Era como  um pedacinho do país chegar na minha  casa, uma pequena viagem quando eu não podia viajar de verdade. Eu achava isso o máximo, não havia e-mail que pudesse substituir uma coisa dessas.

amigos por correspondência por todo o mundo cartas

Cartas da Alemanha, Rússia, Índia, EUA, Estônia, Tailândia, Filipinas, Hong Kong, Chile, Turquia… de todo lugar do mundo, cada uma com uma cara e um cheiro diferente, um pedacinho do país chegando pelo correio

E quando chegavam caixas, então?

A primeira que recebi foi da Janet, uma holandesa que me enviou uma caixa com um perfume, vários CDs de bandas locais, cartões postais, dois sacos de balas tradicionais e uma revista teen (que eu não conseguia entender nada, mas era para “ver como os jovens holandeses se vestiam”). Foi tãããõ legal abrir aquela caixa, lembro até hoje do cheiro do perfume e do gosto das balas! Depois dessa, recebi caixas da índia com vários DVDs de filmes de Bollywood, uma camisa da Polônia com estampa da visita do Papa João Paulo II, CDs de bandas de rock e balas e pirulitos da Alemanha, uma camiseta de um time de futebol do Chile, um livro de receitas da Costa Rica e por aí vai… e claro que mandei muita coisa do Brasil também, né! Era camisa do Flamengo, cartão postal da praia de Ipanema, revista Capricho, balas Gamadinho, CDs de funk antigo… tanta coisa! haha

cartões postais, cartões de feliz natal e cartões de aniversário recebido de amigos por correspondência

Eu tinha uma coleção enorme de cartões postais, além de ganhar cartões de feliz natal e aniversário em muitos idiomas diferentes! E também recebia muitas fotos impressas dos meus pen pals, e era muito legal ver a diferença nos cenários, no estilo e na aparência de cada um

Fiquei desde a oitava série do colégio até o final da faculdade me correspondendo com um monte de gente. Isso foi fundamental para a minha fluência no inglês e, principalmente, para me dar mais e mais vontade de viajar. Só que quando comecei a trabalhar e a ficar muito ocupada com estudos, namorado e coisas da vida cotidiana, aos poucos fui parando de escrever e receber cartas… as coisas normais da vida, sabe?

Ainda existe gente que escreve cartas e troca coisas pelo correio!

Esses dias fui visitar meus pais e resolvi pegar de volta a minha caixa de cartas. Reli muitas e adorei ver que, nos últimos anos, conheci vários dos países das pessoas com as quais me correspondia, teria sido ótimo encontrar com elas durante as viagens. E aí fiquei com tanta saudade que resolvi escrever para alguns dos meus velhos pen pals novamente e ver como anda a vida. E mais ainda, de fazer novos amigos por correspondência para, quem sabe, encontrar nas minhas próximas viagens.

Voltei a fazer uma pesquisa na internet e vi que vários dos sites que eu usava ainda existem e estão cheios de outros nerds como eu gente na faixa dos 20, 30 anos (e todas as outras idades também) buscando por amigos por correspondência. Realmente indico fazer amigos assim para quem gosta de escrever, quer praticar o inglês, conhecer gente de realidades totalmente diferentes e, acima de tudo, receber muitas coisas legais pelo correio, em vez de só as contas chatas que passamos a receber depois de adultos. Quando estiver difícil viajar de verdade, esse é mesmo o jeito mais próximo de experimentar o mundo. E sem falar que, quando der para viajar, ainda dá para descolar uma acomodação grátis na casa dos amigos também, né. Fiz uma triagem e selecionei esses sites aqui, ó:

Melhores sites para arranjar amigos por correspondência (pen pals):

Interpals – Esse é um dos sites mais famosos e tradicionais, e funciona como uma rede social, onde é possível fazer um perfil bem detalhado, mandar mensagens diretas, colocar muitas fotos e adicionar amigos. É bem legal e eu ressuscitei o perfil que tinha lá anos atrás, vamos ver o que aparece. haha

Penpal World – Esquema clássico de site onde é possível colocar o perfil, fazer buscas e trocar mensagens. Todo o contato é feito através do site e você só dá seus dados pessoais (email, Facebook, endereço postal…) se quiser.

Penpals Now Outro site bem tradicional, no mesmíssimo esquema do Penpal World.

Maarten´s Snailmail Pen Pals  – Eu usei muito esse site e ele continua com a mesma cara ultrapassada de 1998, mas ainda é muito legal e útil para encontrar gente realmente interessada em trocar cartas e fazer bons amigos por correspondência.

Todos esses sites citados são grátis. Mas se você estiver disposto a gastar um dinheirinho, tem também o site mais tradicional de todos:

International Pen Friends  – O International Pen Friends começou em 1967 como uma base de dados, que indicava pen pals que tivessem a ver um com o outro a partir do preenchimento de um formulário bem detalhado sobre os interesses e assuntos que cada um gostaria de falar. E agora, como site, ainda funciona da mesma maneira, analisando perfis de pen pals inscritos e fazendo as indicações. Para isso você paga cerca de U$20, mas é mais garantido de achar uma pessoa realmente interessada em manter uma amizade via correspondência e que tenha a ver com você. Eu nunca usei, mas dizem que é muito legal.

carta para o papai noela

Com 13 anos eu fiquei tão empolgada que escrevi até para um endereço do Papai Noel que achei. E “ele” me respondeu! Com uma carta muito fofa direto da Finlândia e uma cartela de adesivos liiiindos… achei isso tão legal na época!

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Comentários

13 comments

  1. Pingback: Amigos por correspondência (ou como viajar quando não dá para viajar) - Rede de Blogs Outdoor

    1. Thaís Freitas
      Autor
      Thaís Freitas

      Faz isso sim, Adi, você vai adorar! Tem um monte de gente legal e ainda dá para descobrir e aprender muita tendência e novidades que ainda não estão rolando no Brasil.

      Ah, e muito legal seu blog, curti! :)

      :*

    1. Thaís Freitas
      Autor
      Thaís Freitas

      Oi, Fernanda!
      Já tinha ouvido falar do Postcrossing, mas não conhecia ninguém que tenha usado. Bem legal o post e saber que você gostou da experiência… embora eu prefira trocar cartas, com certeza vou tentar, porque postais são muito legais também!
      Beijos :*

  2. Brunnete

    Tenho procurado pessoas que ainda usam cartas, encontrar amigos, inimigos, sei lá kkkk. Sempre achei incrível ver esse tipo de coisa no cinema mas ver sua história agora foi mais legal, pareceu mais real. Realmente estimulante :D.
    Abraços.

    1. Thaís Freitas
      Autor
      Thaís Freitas

      Oi, Brunnete!
      Às vezes as coisas que acontecem no cinema podem acontecer e ser tão legais na vida real também. E escrever cartas é uma dessas coisas, e te digo que chega a ser quase mágico receber uma cartinha toda colorida que viajou desde o outro lado do mundo até a sua casa. Experimenta que você com certeza vai gostar! 😀
      Beijos
      Thaís

  3. Fabrício de Andrade

    Hoje estava limpando meu antigo quarto na casa de minha mãe e encontrei as cartas que trocava com os amigos que fiz através do IPF. A vida foi passando e por algum motivo não mais escrevi, alguns deixaram de escrever e 10 anos depois tenho uma caixa de lembranças de amigos de muitos lugares que sequer conheci pessoalmente.
    Resolvi mandar um cartão para os endereços que eu tenho, de repente o endereço é o mesmo e os amigos ainda se lembrem de mim. Se der certo poderei saber como ficaram depois de 10 anos.
    Após reler as cartas, resolvi procurar no google se o IPF ainda existia e encontrei o seu texto e me identiquei muito!

    1. Thaís Freitas
      Autor
      Thaís Freitas

      Oi, Fabrício!
      Que legal que vc gostou e se identificou com o texto, a sua história é bem parecida com a minha, né? É engraçado como a gente foi parando de escrever aos poucos, sem nenhum motivo… é o rumo que a vida vai levando mesmo, não tem jeito. Eu também estou querendo mandar um cartão para os meus antigos pen pals, mas confesso que com essa correria de final de ano ainda não tive tempo de fazer isso. Se você mandar, volta aqui e me conta depois o que aconteceu, se eles responderam e como estão… fiquei curiosa, e vai ser uma motivação a mais para eu escrever de novo para os meus velhos amigos por correspondência. 😉
      Beijo! :*
      Thaís

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  5. Belma

    Que legal estou muito feliz e ansiosa para receber minha cartinha
    <3 Mas estou com dúvida sobre o selo… Posso comprar qualquer um?

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